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HÁ 40 ANOS

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40 anos – Asaph Borba

Há 40 anos atrás, em 1975, saí pela primeira vez de Porto Alegre para um trabalho missionário. Íamos em um ônibus da Igreja Metodista, rumo ao nordeste Brasileiro. A tiracolo, meu violão Di Giorgio, último presente de meu pai, e uma mochila com as poucas roupas que eu possuía naquela época.

O pastor Mércio Meneguetti que liderava a caravana de cerca de 50 jovens, foi enfático: vamos dormir aonde der e comer o que nos for oferecido. Mas, vamos ser bênção em todo lugar, concluiu.
Lá fomos nós. Cantando, enquanto estávamos acordados e na maior disposição. Aonde parávamos era alegria e celebração. Belo Horizonte, Salvador, Aracajú, Recife e para mim, finalmente, Natal. O ônibus ainda rumou para Fortaleza. Em cada uma dessas cidades ficou um grupo de cerca de 10 pessoas, participando por mais de uma semana de retiros, celebrações e evangelismo.
Olhando para trás, tudo era precário. Dormindo em rede, bancos de igrejas, casas simples ou inúmeras noites no próprio ônibus sem ar condicionado, mas nada disso nos tirava a força, pois dentro de nós havia vida. Sim, muita vida.

No decorrer dos anos, depois de percorrer 52 nações dos cinco continentes, a lembrança daquela primeira viagem continua inesquecível. Ficaram imprimidos em meu coração, princípios que nunca mudaram.
O primeiro é quanto a simplicidade. Reconheço que Deus me prosperou, e muito. Viajo basicamente de avião, ou em carros confortáveis que o Pai nos permite ter. O violão simples da época foi trocado por outros de melhor qualidade. Pra não falar nas gravações de CDs e DVDs que hoje temos distribuídos pelo mundo afora. Mas contudo, sempre orei para que a simplicidade de Deus o dos pequenos começos nunca saíssem de meu coração. A simplicidade de aceitar tudo o que Deus manda. Abundância ou carência, bonança ou provações. O homem nada tem se do alto não lhe for dado.

Outra coisa daquele início era a vontade e disposição de servir a Deus. Alegria de cantar, testemunhar e simplesmente, estar com os irmãos. As viagens de Kombi lotada pelo interior, lugares que não chegavam nunca, não eram alvos de reclamações e sim eram parte do prazer de estar com os irmãos mais tempo ainda.

Por fim, não colocar nenhuma outra coisa na frente de Deus e sua obra. Ali estávamos unicamente por causa de Senhor. Não tinha oferta, cachê, venda de discos, rádios, mídia. Só tinha Deus, Igreja, Irmãos e a maravilhosa obra à nossa frente. Todos que participavam, só tinham uma agenda e nada paralelo. Creio que isto é o que nos falta hoje. Mesmo eu, que guardo estes princípios, tenho a tentação de me distanciar dos mesmos. Mas que bom que meu querido  Deus e meus amados pastores, não me deixam esquecer das palavras de Jesus em Mateus 6.33 – buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas.

FÉ, ESPERANÇA E AMOR

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Asaph Borba de Amã – Jordânia

Os degraus da escola nos fundo do monastério, nos arredores de Amã, Jordânia, pareceram longos e embaçados, enquanto eu os descia devagar. Ia na frente, tentando esconder de meus colegas as lágrimas que insistiam em rolar. A semana já tinha sido forte. Visita, ao campo de refugiados de Zátari na fronteira com a Síria, hoje com mais de 84 mil pessoas, na maioria muçulmana, que esperam a sorte e a política mudarem. Vivem de forma provisória no meio do deserto, sem nenhuma perspectiva a curto ou longo prazo. Sobrevivem do que a ONU e o sobrecarregado governo Hashemita têm a oferecer. Visitamos ainda, famílias de refugiados urbanos que ocupam todo espaço disponível em Amã, que hoje, segundo dados oficiais, representam mais de 20% da população do pequeno reino. Estivemos também, nos bastidores do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados – ACNUR, aprendendo como é processado o cadastramento e sustento das mais de 900 mil pessoas que por ali passaram, nos últimos quatro anos. Mas, nada foi tão emocionante como esta tarde. Descendo a escadaria, deixava para trás cerca de 350 crianças e juvenis, filhos de refugiados cristãos, alguns deles desacompanhados e órfãos da guerra sangrenta, mas que encontraram refúgio no coração, alargado, do Padre Carlos, um homem singular e cheio de amor.
No refúgio, tudo é simples. Os professores, médicos, dentistas e psicólogos, são todos voluntários. Alguns estrangeiros, outros são locais. Existem ainda, aqueles que são também refugiados e estão ajudando a instituição como podem. Quando entramos em uma das salas, os cerca de 30 adolescentes presentes, ficaram de pé e sem hesitar cantaram o Pai Nosso em sua língua materna do norte do Iraque, o Aramaico. Seus olhinhos fechados e mãos estendidas a Deus, fizeram do momento um pedacinho do céu, junto das portas do inferno.
Todas estas crianças, são de famílias cristãs. Muitas das que visitamos durante a semana são muçulmanas, porém todas de igual modo, têm traumas profundos. Em uma das casas, enquanto o pai narrava a saga de expulsão e fuga de Nínive no Iraque, sua menina de sete anos, começa chorar compulsivamente dizendo: tudo ficou lá. Eu não tenho mais nada e não tenho mais nenhum amigo ou família, soluçava a pequenina. Assim como a viúva que teve o marido morto em sua frente e na presença de netos e nora, cuja a única opção foi fugir.
Sem dúvida, nesta semana minha vida mudou profundamente. Podemos ter miséria e privações em nossa terra, mas nada se compara às que vimos e ouvimos aqui. A ausência de perspectiva e de possibilidade, vai exterminando os sonhos dos mais velhos e aniquilando o potencial dos pequenos. Em Zátari, por exemplo, de acordo com o coordenador da UNICEF, das 30 mil crianças, só a metade vai à escola, as outras, muitas delas no local já há quatro anos, não fazem nada, além de perambular pelas ruas empoeiradas do campo.
Mas, foi descendo a escada que compreendi em meu espírito o versículo de 1 Coríntios 13:13 – Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, destes três; porém o maior é o amor. Tem horas na vida que tudo aquilo que parecia ter valor e dar segurança, acaba. Estive com pessoas que um dia eram ricas e bem de vida, e hoje, não possuem mais nada. Os muçulmanos, apesar de conformados com o destino de Alá, me pareceram sem muita expectativa, porém os que são de Cristo, os olhos ainda brilham, expressando alegria e até mesmo gratidão a Deus, como o fêz Assad: acima de tudo, louvo a Deus que salvou a minha vida e de minha família enquanto muitos morreram ao meu redor, concluiu.
A fé, em meio a privação, se torna a força que sustenta o espírito humano, a esperança é o que leva para frente, mesmo que seja um passo de cada vez, e o amor, é o perfume de Deus, que a gente sente em lugares como estes. Este amor quando verdadeiro, é tão forte e grande que faz com que muitos de nossos valores se apequenem.
Quando perguntei ao Padre Carlos como a Igreja brasileira poderia ajudar? Sem hesitar respondeu: Só amar. Eles precisam de amor! Saí dali naquele dia, redefinindo em meu coração o que é amor. Lembrei de 1 Coríntios 16:14 – Todos vossos atos

sejam feitos com amor. Sim estes lugares carecem de atitudes urgentes: oferta financeira, saúde, vistos para refúgio e tudo mais que podemos fazer daqui para frente, mas tem que ser regado pelo verdadeiro amor.
Na saída em meio a algazarra da criançada, ainda tive olhos para ver em um canto, uma menina portadora de necessidades especiais. Me aproximei e toquei com carinho seu rosto, quando ela, então, estampou um sorriso de quem só espera por isso. (obviamente lembrei de casa e……)
Nossa visita foi de caráter oficial pela ANAJURE Refigees, representando a Frente Parlamentar Mista para Refugiados e Ajuda Humanitária do Congresso Nacional, e em parceria com o Alto Comissariado das Nações Unidas Para Refugiados.
No final, Padre Carlos declarou: aqui dentro, não temos imagens de santos, porque estes são os meu santos.

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