Arquivo de agosto, 2013

INTOLERÂNCIA OU PAZ

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 A primeira vez que eu ouvi falar de campos de concentração, foi na aula de história no Colégio Militar de Porto Alegre em 1973, quando o professor, Coronel Bayard, narrava minuciosamente as atrocidades feitas aos judeus, ciganos e polacos nos campos de extermínio da Alemanha nazista, durante a 2a Guerra Mundial entre 1940 a 1945. Meus olhos de um menino de 13 anos acostumados com a vida bucólica do interior, criado por uma mãe evangélica e um pai pacato, não conseguia mensurar tamanha barbárie feita por um ser humano a outro. Trens da morte com câmara de gás, fornos para derreter pessoas. Minha imaginação mal conseguia seguir a narrativa e pensar o que era aqui.
Porém, 41 anos depois, ali estavam eles, feitos de ferro fundido. Fornos que tinham um pouco mais do que o tamanho do corpo de um homem. Por trás dos mesmos, as canaletas indicam o caminho para onde a gordura humana corria para depois se transformar em sabão ou outra coisa qualquer. Encontrei essa triste realidade histórica no campo de concentração de Buchenwald, na antiga Alemanha Oriental.
Estava ali acompanhado por meu filho André (16), que também já conhecia os fatos mas, assim como eu, não conseguia mensurar tudo que se passou ali naquele período de cinco anos. Ficamos estarrecidos. Fomos vendo cada um dos blocos, preservados primeiramente pelos comunistas que dominaram o local  depois da guerra, e mais tarde, o campo foi aberto como memorial, após a queda do muro de Berlim. Laboratórios, banhos químicos, local onde os cachorros ficavam, alimentados por carne humana. Nada lembra qualquer ato de humanidade, para onde quer que se olhe, ou se entre, o sentimento é de repulsa. Tudo. Fotos, trens, fornos e câmaras de banho e gás, mostram o quanto a natureza humana pode se degenerar fazendo do próximo a próxima vítima.
Poucos meses antes, ao visitar o Museu do Holocausto em Jerusalém, pude ver com maior historicidade o assunto, mas em Buchenwald a coisa era mais real. Nos quartos frios e solitários onde os prisioneiros esperavam a morte, se pode ainda encontrar as flores de plástico deixadas por descendentes, assim como cartas das famílias e inúmeras lembranças dessas pessoas que tiveram como único crime o pertencer a uma dessas minorias, e por isso mostraram-se inconvenientes ao regime de poder vigente. O local é um memorial que realça o clímax da intolerância humana. Ao ler-se a história do processo que levou ao holocausto, verifica-se que o mesmo iniciou-se com uma pequena divergência de opinião política e terminou assim, com a morte, passando obviamente por desprezo, humilhação, perseguição, etc…
Entretanto, o que desejo enfocar com esta narrativa, não é o que nazistas fizeram com judeus, mas sim o que pessoas fazem com outras pessoas. Poucos dias antes de visitar Buchenwald e depois, os memoriais do muro comunista de Berlim, atual capital da Alemanha, estive ainda com meu filho, na cidade de Belém, em Israel. Visitamos a região atrás dos novos muros que separam dois povos e que marcam igualmente a intolerância entre judeus e palestinos. Se olharmos os relatos atuais, vê-se que as atrocidades continuam, como fruto da incapacidade de atitudes positivas que levem a uma negociação de paz.  Agora a história tem os sionistas, outrora perseguidos e seus vizinhos palestinos, como protagonistas desse processo insolúvel de paz. As duas partes mostram a mesma coisa: intolerância. De um lado palestinos impulsionam a Jihad contra e Israel, e do outro, os judeus defendem um etnocentrismo utópico, que impossibilita a assimilação e o convívio com outras raças e crenças que habitam a região. Juntos, fazem desse conflito  uma das tristes heranças do século 20.
Por isso, o que devo perguntar, ao narrar estes quadros? Como podem os mesmos serem evitados? Basta conhecer um pouquinho da natureza humana para entender que campos de extermínio nascem de uma hora para outra e sim dia após dia dentro dos corações? As Jihads surgem em casa, no trabalho, no trânsito ou até mesmo, na Igreja. Nós evangélicos, frequentemente nos colocamos como raça pura e queremos expulsar de perto alguns impuros, pecadores, idólatras e infiéis. Olhamos para os extremistas islâmicos, mas no fundo, temos algum tipo de prazer ou alívio quando os vemos derrotados e mortos. Os católicos e protestantes, nas modernas Irlanda e Inglaterra,  se engalfinharam por meio século, promovendo insegurança e morte. Ortodoxos e evangélicos lutam pelo poder no Oriente Médio e os Xiitas e Sunitas fazem o mesmo no meio das diferentes e conturbadas comunidades islâmicas.
O profeta Jeremias, por certo, ao ver o comportamento das pessoas dentro da Jerusalém sitiada, escreveu:enganoso é o coração mais do que todas as coisas e desesperadamente corrupto, quem o conhecerá? (Jeremias 17:9)
O antídoto está aqui: cuidar do coração, enchendo-o do puro e verdadeiro amor de Deus. Só assim, do nosso interior transbordarão fontes de vida e não de morte. Isto significa que devemos zelar por nosso interior, que são os sentimentos, emoções, intelecto e principalmente a vontade. Por esta razão Jesus declarou que odiar é o mesmo que matar . A intenção vale tanto quanto a ação. E aqui entra a cruz. Na transformação e mudança interior, para que as motivações e intenções sejam as mesmas que motivaram a Cristo a perdoar, aceitar, buscar, reconciliar e acima de tudo amar. Só o ensino dos princípios eternos pode fazer esta obra. As leis e sistemas humanos podem impedir que algumas dessas atrocidades voltem a acontecer, mas são paliativas. Somente a mudança feita por Jesus em cada coração é perene, pois transforma de forma definitiva o indivíduo transformando suas motivações. Por isso o quanto mais levarmos a verdade desse amor pelo mundo afora no presente, menos muros e campos de morte veremos no futuro. Jesus disse: bem aventurados os pacificadores porque serão chamados filhos de Deus. (Mateus 5:9). Todos querem ter parte nesta filiação divina, mas o Mestre, também chamado de Príncipe da Paz, deixou claro que somente aqueles que tem compromisso  com a paz, a reconciliação e o amor é que podem postular-se a tal.
Asaph Borba
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(Foto – Muro que separa Belém de Jerusalém em Israel)

ADORAÇÃO ONTEM E HOJE

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Adoração Ontem e Hoje

Por Asaph Borba

 

 

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           (Foto Asaph, Leonardo Gonçalves e Nívea Soares)

 

O tempo frio e chuvoso, na cidade de Ponta Grossa no estado do Paraná, não impedia que minha mãe pegasse seus quatro filhos, ainda pequenos, e os levasse às reuniões de quarta feira, na Igreja Congregação Cristã do Brasil, aonde um dirigente com um acordeom vermelho ensinava os “corinhos”de louvor e adoração, impressos na contracapa do novo hinário da denominação. Foi ali, a primeira vez que me deparei com este estilo de música, diferente dos antigos hinos, que se define hoje no meio evangélico, Louvor e Adoração.

Contudo, meu entendimento sobre o tema foi crescendo, depois de minha conversão a Cristo em 1974. Comecei compor cânticos, e conheci outros que o faziam. Uma noite na Igreja Metodista Institucional, conheci o grupo cristão de maior influência na época,  Vencedores por Cristo. O local estava abarrotado de gente, o que demonstrava a expectativa, interesse  e sede, de gente que, como eu, estava  buscando uma nova maneira de expressar-se diante de Deus.  Para minha surpresa, o pastor da igreja, me chamou para uma canção inicial junto com o grupo, que emoção! Entretanto, o que ficou gravado em meu coração não foi apenas a alegria de ter tocado com aqueles irmãos, mas,  o ambiente de louvor a Deus que ali havia. Eu disse a Deus que era aquilo que eu queria para minha vida. As músicas cantadas por aquele grupo, entre elas “Se eu fosse contar”,  nunca mais saíram de meu coração.
Depois disso muito aconteceu na Igreja,  principalmente quando se fala de louvor e adoração.
A música deixou de ser uma simples expressão do coração para se tornar um produto de consumo de um grande segmento de mercado consumidor cristão, fruto do crescimento natural da Igreja brasileira. Uma grande parte dos novos músicos, assim como eu, foram gradativamente deixando  suas atividades, para adorar a Deus, porém outros tem se dedicado apenas em satisfazer este público consumidor. Isto fez com que muito da riqueza de estilos que temos se perdesse em meio a uma música com cara de importado que estancou o fluir genuíno da adoração brasileira.
Esta influência estrangeira é um outro aspecto. No Brasil tem-se a tendência de se achar que o que vem de fora é o melhor. Não tenho nenhuma barreira com a música de outros povos. Sou um incentivador pessoal da música cristã das nações. Porém, ao andar pelo mundo, tomo o cuidado de estar atento ao que Deus está fazendo. Sei o quão importante é valorizar os compositores, os ritmos e cultura de cada local, para que não aconteça o que tem acontecido com nossas expressões musicais. Temos a capacidade de assimilar o estrangeiro com facilidade ao ponto de deixar nossa rica  música de lado, fazendo com que a cultura musical cristã valorize o importado, deixando de lado o que é nacional.
Podemos pontuar também a tendência de manter as formas dogmáticas e ritualistas que criam estruturas engessadas, que roubam a simplicidade e riqueza de tudo que é novo e espontâneo. Não me refiro àquilo que já é definido nos rituais dos cultos cristãos históricos, mas falo também dos novos rituais que as igrejas mais novas tem criado, que se mostram tão  inflexíveis quanto as mais tradicionais, dificultando a abertura ao novo. Na minha época de adolescente e depois como jovem cristão, cheio de músicas de louvor e adoração, o que eu mais queria era jorrar o vinho novo, que Deus gerava em minha vida. Agradeço ao Senhor que me permitiu ter pastores que abriram espaço para esse transbordar.
Hoje, vejo que ainda há muito a ser feito mas, com a graça de Deus, o louvor e a adoração não vão cessar, pois, acima de tudo está o coração de cada adorador que Deus procura.